Bem-Estar

O Que é Um Vício e Como Reconhecê-lo.

O Que é Um Vício e Como Reconhecê-lo.

Para se livrar de um vício, é necessário primeiro reconhecer que ele existe. Parece óbvio, mas em muitos casos identificar que um hábito se tornou irresistível e está afetando a qualidade de vida pode ser tão ou mais complexo do que se livrar dele.

A dependência é uma doença crônica. Mas como é causada por fatores genéticos, biológicos, psicológicos e ambientais, identificá-la é sempre um desafio. Ela afeta as funções de recompensa, motivação e memória do cérebro, prejudicando o autoconhecimento e o autocuidado.

No entanto, transtornos aditivos e aqueles relacionados a substâncias têm uma característica em comum: eles se tornam mais importantes para a vida da pessoa do que qualquer outra atividade. Seus impactos são físicos, psicológicos e emocionais.

Normalmente, para alguém que observa este processo em outra pessoa, identificar um vício é mais fácil. Ter uma uma forte rede de suporte é essencial para todos, mas para quem precisa de ajuda para vencer uma dependência é ainda mais importante.

Ao longo desse artigo descrevemos alguns meios de reconhecer um vício, suas consequências e tratamentos:

O que significa vício e seus tipos

A palavra vício é associada ao abuso de substâncias e dependências comportamentais, como jogo e celular. De modo geral, toda atividade que uma pessoa é incapaz de se abster consistentemente, seja um comportamento ou substância, pode ser considerada um transtorno aditivo.

Algumas das substâncias que provocam essa doença crônica são drogas lícitas, como álcool e nicotina, ou ilícitas, como maconha e cocaína. Além disso, há também o vício por medicamentos, caracterizado pelo uso descontrolado de remédios sem indicação médica.

O vício comportamental pode incluir jogos de azar, sexo, celular, internet e redes sociais. A dependência emocional também é classificada desta forma.

Mas o que causa um vício?

O nome que se dá para o estudo das causas de doenças é etiologia. No caso de transtornos aditivos, os especialistas buscam respostas em múltiplos aspectos da vida da pessoa, sejam questões genéticas, biológicas, psicológicas ou ambientais, como estilo de vida.

O vício, portanto, não é só uma escolha. Suas causas têm múltiplos fatores. Assim como no diagnóstico de diabetes tipo 2 e outras doenças crônicas, não é possível indicar uma única origem para esta condição.

Em termos psicológicos, a dependência pode ser vista como o anseio de suprir uma necessidade que não foi completamente satisfeita. A adição serve como uma forma de alívio e satisfação.

O vício pode ser uma resposta à dor emocional. Isso não quer dizer que todas as pessoas do mundo que já se frustraram tornaram-se dependentes. A maioria dos que trilham esse caminho, no entanto, fazem isso para amenizar um trauma.

Identificando os primeiros sinais de um vício

Mulher de braços cruzados olhando para homem que viciado em celular.

Nos estágios iniciais, o indivíduo pode não apresentar sinais significativos e preocupantes. Mas isso pode mudar em pouco tempo.

Grande parte das pessoas apresentam componente genético ou uma predisposição hereditária, mas a dependência está intimamente ligada ao comportamento. Confira alguns sinais que podem indicar o começo de algo grave:

  • Incapacidade de se abster constantemente de algo;
  • Aumento da ansiedade e dor emocional;
  • Resposta emocional disfuncional;
  • Desinteresse em obter ajuda;
  • Dificuldade em expressar sentimentos.

Quando o transtorno aditivo é ao mesmo tempo um hábito social comum, como consumir bebidas alcoólicas e tabaco, torna-se ainda mais difícil identificar os primeiros sinais de compulsão. O que no início pode parecer um ato ocasional para controlar o estresse, por exemplo, pode evoluir rapidamente para a dependência física e psicológica.

Uma pessoa com a mente saudável geralmente reconhece um comportamento propenso ao vício e consegue se livrar dele antes de precisar de ajuda externa. Mas esse não é o caso de indivíduos dependentes: admitir que o problema existe se torna quase impossível. O dependente químico tem a tendência de encontrar justificativas para continuar com os mesmos comportamentos que o prejudicam.

Esse comportamento de negação do vício dificulta o processo de tratamento. O primeiro passo para obter ajuda é o reconhecimento dos sinais físicos, mentais e emocionais.

Efeitos do vício no corpo

O vício afeta a anatomia do cérebro em muitos níveis. No funcionamento químico, na sinalização de uma célula à outra, e até mesmo nas sinapses associadas ao aprendizado.

Após o uso de substâncias químicas, como a nicotina e o álcool, há mudanças no cérebro e na corrente sanguínea. Essas alterações causam a perda de controle dos impulsos ou o desejo por uma nova substância.

O cérebro do dependente anseia pela sensação gerada pela substância ou hábito. Isso porque o uso ou evento estimulam o sistema de recompensa do cérebro. Em resposta a esses estímulos, muitos usuários se tornam ainda mais viciados, necessitando de doses cada vez maiores para atingirem alguma satisfação.

As drogas interagem com o sistema límbico para liberar emoções de bem-estar, afetando o corpo e a mente. Os adictos continuam no vício para sustentar a sensação de satisfação que o cérebro libera, criando um ciclo de uso apenas para se sentirem normais.

A frequência do vício

Que todos os vícios têm natureza recorrente nós já sabemos. O que não dá para se afirmar é que todos são iguais. Ou únicos.

Em 2021, especialistas canadenses publicaram um estudo de 5 anos sobre a cronicidade — ou a constância de um vício. Cerca de 1000 voluntários com algum tipo de comportamento obsessivo participaram. Pessoas lutando contra abuso de substâncias, vício em jogos, sexo e compras. Muitos dos participantes ainda possuíam mais que um transtorno aditivo.

A pesquisa concluiu que diferentes transtornos aditivos têm cronicidades distintas. Além disso, vícios múltiplos tem uma maior cronicidade em comparação a um único.

O uso de drogas e a prática de jogos de azar são doenças crônicas com nível alto de assiduidade e constância. Mesmo que para alguns indivíduos pode ser mais fácil se engajar em um tratamento, a tendência é que estes transtornos aditivos sejam mais crônicos de forma geral.

Em contrapartida, comportamentos excessivos, como compras compulsivas, são mais passageiros para a maioria das pessoas. Sua intensidade varia de acordo com as fases da vida. Porém, isso não torna o tratamento menos importante. Pode-se argumentar até o contrário: quanto maior o aspecto de normalidade entre uma crise e outra, maiores e mais graves podem parecer as consequências do transtorno quando ele ocorre.

Consequências a longo prazo

No início, uma dependência não tem consequências especialmente claras. Nos estágios intermediários e avançados, no entanto, os efeitos podem ser muito negativos.

No âmbito psicológico, já vimos que prejudica a capacidade cognitiva da pessoa. Socialmente, tende a ser uma tragédia inclusive para familiares e amigos. Fisicamente, pode causar até mesmo a morte.

Quem tem transtornos aditivos crônicos demora a realizar uma análise que para todas as outras pessoas é até automática: comparar os riscos do seu hábito com seus benefícios e decidir por mantê-lo ou largá-lo.

Uma pessoa sem propensão à dependência logo percebe que os riscos de usar uma substância tóxica frequentemente são muito maiores que os seus benefícios. Um indivíduo viciado, no entanto, está doente e tem menor capacidade de julgamento. Com a função de recompensa do cérebro prejudicada, a decisão sobre manter o hábito aparenta ser sempre melhor. O que é um erro grave.

As consequências estão ligadas a doenças emocionais: depressão, ansiedade, insônia e compulsão, por exemplo. Mas também se manifestam em todo o corpo como dores musculares, cansaço e perda de apetite. Ao logo do tempo, cada um destes sintomas fica gradativamente mais acentuado.

No longo prazo, todo sistema neural é afetado, fazendo com que a pessoa não cumpra quaisquer dos seus outros compromissos profissionais e pessoais. Perder empregos e relações afetivas é uma ocorrência comum.

Tratamentos para o vício

Grupos de suporte ajudam na recuperação e nos tratamentos para o vício

O vício não tem cura, pois é um problema crônico. Mas como qualquer doença deste tipo pode e deve ser tratado.

Qualquer pessoa que um dia foi dependente pode voltar a ter uma vida mais saudável. Em geral, esse processo de desintoxicação passa por aprender a controlar desejos e reprogramar o sistema de responsabilidades.

O primeiro passo para a recuperação é o reconhecimento do problema. Uma vez que isso acontece, muitos tratamentos estão disponíveis. Para a maioria das pessoas, esse cuidado tem que ser feito para o resto da vida.

O tratamento de um vício não é padronizado, a melhor opção é um plano terapêutico personalizado de acordo com as necessidades e disposição do adicto.

As opções de tratamento incluem o acompanhamento biopsicossocial, feito por uma equipe de saúde integrada. Em geral, é composta por psiquiatra, psicólogo e assistente social. Eles avaliam os fatores biológicos, psicológicos e sociais para traçar o tipo de cuidado mais adequado ao perfil do paciente e seu vício.

A combinação de abordagens, como terapia e medicação é historicamente usada com bom grau de sucesso. Para os sintomas físicos, há atendimento psiquiátrico e de um clínico geral.

1. Desintoxicação

A desintoxicação acompanhada por um médico consiste em livrar o corpo do adicto das substâncias em um ambiente seguro. Geralmente é usada em combinação com outras terapias.

2. Terapia Cognitiva Comportamental (TCC)

Usada para diferentes tipos de dependência, a TCC ajuda não só a reconhecer os padrões comportamentais, como também a identificar gatilhos que levam ao consumo ou hábito e desenvolver forças para enfrentá-los

3. Gerência de contingência

O Gerenciamento de Contingências é usado para uma grande variedade de vícios também. Esse tipo de terapia reforça o comportamento resiliente e positivo, mantendo a sobriedade e proporcionando recompensas tangíveis. Essa alternativa tem sido bastante usada em casos de recaídas, de acordo com o Instituto Nacional de Abuso de Drogas, nos Estados Unidos.

4. Os 12 passos

O programa dos 12 passos é muito conhecido e pode ser usado para tratar o abuso de álcool e outras substâncias.

É caracterizado por ser uma terapia em grupo. Nela, os participantes falam sobre o reconhecimento do vício e suas consequências. Este tipo de tratamento inicia com a aceitação, depois arrependimento e por fim a troca de experiência com seus colegas. Programas como Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos usam essa técnica para apoio mútuo.

5. Medicamentos

O uso de medicamentos, sempre com acompanhamento médico, pode ter um papel importante quando feito junto com terapias comportamentais. A medicação correta pode reduzir os desejos, melhorar o humor e diminuir comportamentos repetitivos.

Precisa de ajuda?o Hesite.

Muitos hábitos proporcionam prazeres genuínos ao corpo e à mente. Todos eles, quando realizados em excesso, podem evoluir para um vício. Enquanto sentir prazer a partir de uma substância ou comportamento é importante para a qualidade de vida, sem o devido equilíbrio pode se tornar uma dependência crônica.

Ao primeiro sinal de descontrole, é essencial ter alguém a quem se apoiar e pedir ajuda. O quanto antes for identificado um transtorno aditivo, maiores serão as chances de recuperação. Por consequência, ter uma rede próxima de familiares, amigos e profissionais de saúde é um fator decisivo para evitar a recidiva de um vício.

Portanto, se você ou alguém com quem você se importa vêm demonstrando sinais de transtornos aditivos ou lutando contra um vício — não hesite em pedir ajuda. Não há necessidade de lutar esta batalha sozinho. Converse com um profissional da saúde, existem tratamentos que podem auxiliar na superação e na retomada do bem-estar físico e emocional com qualidade de vida.

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